
O difícil equilíbrio entre o On e o Off. Efeitos na saúde mental e o manejo psicanalítico.

Rejane Nunes
CRP 07/23430
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CRP 07/23430
O estilo de vida atual é marcado por uma aceleração incessante, que impõe as pessoas uma lógica de produtividade exacerbada, reduzindo as margens do desejo e aumentando a alienação ao “Outro”. Sob o viés da psicanálise lacaniana, pode-se pensar essa aceleração como um imperativo do discurso capitalista, que Lacan (1972/1992) descreve como uma estrutura que arrasta constantemente o sujeito, impedindo-o de fazer laço social genuíno e duradouro, promovendo um gozo sem limite, uma necessidade de estar sempre em evidência, sendo visto dentro desta “marca” social que o aprisiona.
O sujeito contemporâneo por sua vez é capturado pelo frenesi da eficiência e obcecado a produzir incessantemente, muitas vezes em detrimento da própria individualidade, perde-se nos motivos que o levam a tal afobação que, com o passar do tempo, esvazia a possibilidade de um encontro com seu desejo, substituindo-o por objetos de consumo que funcionam como suplências ao real da falta (Miller, 2005).
O mercado e a lógica do capitalismo operam como um Outro sem rosto, que exige eficiência e performance contínua, uma vez que, não há mais um “chefe” absoluto, mas uma rede interminável de demandas, métricas, avaliações de desempenho, etc; gerenciadas muitas vezes por plataformas digitais, por algoritmos, que por fim, calculam sua produtividade e eficiência, ordenando velocidade constante.
Assim sendo, a lógica do excesso e da pressa encobre falsamente o vazio existencial, a solidão, a carência, o medo, a vontade de um relacionamento amoroso sólido, o sonho de construir uma família, o Burnout e a angústia difusa, que são algumas das expressões sintomáticas dessa captura que se intensificam, na medida em que a subjetividade é atravessada pelo discurso de mercado, levando o sujeito a uma busca compulsiva por satisfação imediata.
Além disso, a falta de tempo para a simbolização das experiências e o declínio do espaço para a elaboração psíquica, geram um efeito de desubjetivação, ou seja, um enfraquecimento da própria identidade. Alienado, o sujeito fica submisso ao “ discurso do mestre” (Lacan, 1953/1998), sendo servo do que é imposto, deixando-o sempre ativo, conectado e “produzindo”, sem tempo para sustentar sua falta, ou seja, para lidar com suas próprias questões, acaba se identificando com o objeto de consumo e com o ritmo frenético da sociedade, tornando-se ele próprio uma engrenagem dessa máquina desenfreada. (Han, 2015).
A clínica psicanalítica, diante desse cenário, sustenta um lugar que resiste a dialética da urgência, oferecendo um espaço-tempo em que cada um possa se encontrar com sua divisão, seu desejo e sua falta. Por isso, entregar – se no divã do analista é permitir um retorno ao “eu”, a sua singularidade, resgatando questões importantes de sua identidade num ambiente seguro e acolhedor, sem a padronização do paciente a um modelo estereotipado ou a um diagnóstico rápido.
Em um mundo onde tudo corre, a escuta analítica propõe um tempo outro, um tempo de elaboração, onde a palavra pode emergir para além do imperativo da aceleração (Laurent, 2006).
Referências
- Dunker, C. I. L. (2012). Estrutura e constituição da clínica psicanalítica: uma arqueologia das práticas de cura, psicoterapia e tratamento. Annablume.
- Han, B. C. (2015). Sociedade do cansaço. Editora Vozes.
- Lacan, J. (1992). O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (J. A. Miller, Org.). Zahar. (Trabalho original publicado em 1972).
- Lacan, J. (1998). Função e campo da fala e da linguagem em psicanálise. Os Escritos (pp. 238-324). Zahar. (Trabalho original publicado em 1953).
- Laurent, E. (2006). A clínica lacaniana do sintoma. Tempo Freudiano.
- Miller, J.-A. (2005). Um real para o século XXI. Zahar.
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