
Dificuldade de atenção: Transtorno ou sintoma da vida moderna?

Suelen dos Santos Soares
CRP 07/26199
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CRP 07/26199

Nos últimos anos, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ganhado cada vez mais visibilidade. Muitas famílias questionam se realmente aumentaram os casos e buscam entender o porquê desse crescimento aparente. Afinal, estaríamos diante de uma epidemia de autismo ou apenas de um maior reconhecimento dos sinais e diagnósticos mais precisos?
A ciência mostra que a maior parte desse aumento está ligada a fatores de identificação. Estudos internacionais robustos, como os do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) nos Estados Unidos, revelam que, em 2022, uma em cada 31 crianças de 8 anos foi diagnosticada no espectro, número superior ao de anos anteriores. Pesquisas com milhões de registros clínicos também confirmam esse crescimento em crianças e adultos, inclusive em mulheres e grupos antes subdiagnosticados. Revisões globais publicadas em periódicos como Lancet Psychiatry reforçam que os principais motivos são mudanças nos critérios diagnósticos, maior conscientização, redução do estigma e ampliação do acesso aos serviços de saúde.
No Brasil, o Censo 2022 trouxe pela primeira vez um dado oficial: cerca de 2,4 milhões de pessoas declararam ter diagnóstico de TEA, correspondendo a 1,2% da população. Embora esse número seja baseado em informação referida pelas famílias, ele marca um passo fundamental para dimensionar a realidade brasileira. Ainda assim, faltam pesquisas clínicas de base populacional, o que mostra a necessidade de avançarmos em dados mais precisos.
Mas o diagnóstico precoce não é apenas uma questão estatística. Ele faz toda a diferença na vida da criança e de sua família. O cérebro, especialmente na infância, possui elevada neuroplasticidade, isto é, uma notável capacidade de reorganizar conexões e aprender novas habilidades. Quando o TEA é identificado cedo e acompanhado de intervenções adequadas, aumentam significativamente as chances de a criança desenvolver comunicação, interação social e autonomia. Cada ano sem intervenção adequada pode representar oportunidades perdidas.
Na vida adulta, o diagnóstico também é transformador. Muitos relatam alívio ao compreender características que os acompanharam por décadas. Esse reconhecimento possibilita acesso a intervenções específicas, estratégias de enfrentamento mais eficazes e relações mais saudáveis, tanto afetivas quanto no trabalho ou no cotidiano.
Nesse contexto, a Avaliação Neuropsicológica se torna uma ferramenta essencial. É um processo minucioso que avalia funções cognitivas, emocionais e sociais por meio de entrevistas, testes padronizados e observações clínicas. Mais do que confirmar hipóteses diagnósticas, permite compreender o funcionamento de cada pessoa, identificando fragilidades e potencialidades.
O passo seguinte é a Reabilitação Neuropsicológica, que promove o fortalecimento das áreas de maior dificuldade e potencializa capacidades preservadas. Esse acompanhamento, fundamentado em evidências científicas, favorece a autonomia e contribui para uma vida mais plena em todas as fases do desenvolvimento.
Assim, quando falamos em “aumento” dos casos de autismo, é importante compreender que, mais do que um crescimento real, estamos diante de uma ampliação da detecção. E isso é uma boa notícia: significa que mais pessoas têm a chance de receber diagnóstico, acesso a intervenções e, sobretudo, a oportunidade de desenvolver suas potencialidades de forma mais saudável.
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